segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Fratres para violino e piano de Arvo Pärt, por Repin e Lugansky


Uma medida possível da grandeza de uma obra musical é a grandeza do silêncio que se faz no fim. Tenho sentido isso várias vezes, a importância do silêncio depois de música de génio - com Brahms e Bach sobretudo. Mas não só - com A Day in the Life de Lennon e McCartney, God Only Knows de Brian Wilson...

Obra prima já bem conhecida da música contemporânea, Fratres de Arvo Pärt é o que me apetece ouvir neste dia tempestuoso depois de ver as notícias de um mundo tempestuoso. Precisamos de distância. Cada vez mais. Precisamos de alternativas ao desastre.




Nunca a Humanidade se olhou como uma multidão de Irmãos. Talvez seja essa a única Utopia, afinal.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Foram gregos aos Himalaias, na Idade Média ? Parece que sim...


Tanto culto prestamos a Marco Polo e à sua viagem ao Oriente que nos custa aceitar que muito antes dele outros europeus se tenham aventurado tão longe como o Canadá, caso dos Vikings, ou os Himalaias, como estes gregos do Levante: foram descobertas nos Himalaias indianos ossadas datadas do séc. VIII-IX, cujo ADN indica origem helénica !

Ninguém escreve ou fala da Grécia medieval; pelo século VIII entrou num período de semi-barbárie, sob o terror dos invasores Eslavos e Muçulmanos. Talvez por isso os melhores herdeiros de Pytheas, o navegador do Ártico (Ultima Thule) tenham querido escapar a um destino ingrato e partiram de mala aviada. De um Império Bizantino em crise emigraram e colonizaram as terras levantinas pelo menos até à Síria, nos limites do império de Constantino o Grande. Parece que ainda hoje há milhares de gregos na zona de Aleppo, por exemplo.

O Imperio Bizantino ao tempo de Teodora englobava a Síria e o Líbano.

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O Lago Roopkund, conhecido dos locais como lago dos esqueletos, é um minúsculo e remoto lago glaciar a mais de 5000 metros de altitude nos Himalaias indianos, de demorado e difícil acesso. E um sítio dasabitado mas que contém misteriosamente centenas de  esqueletos humanos, descobertos em 1942 por um guarda florestal britânico. A explicação mais plausível para tantas vítimas é uma violenta tempestade de granizo gigante no século IX : assim indicam várias contusões violentas com objectos redondos caídos de cima na parte de trás da cabeça. E existem lendas e canções locais alusivas a essa tempestade.


Uma equipa da National Geographic analisou 30 dessas ossadas desde 2004, ainda com pedaços de carne e cabelos agarrados. Os primeiros resultados apontaram para uma maioria de origem persa/assíria, juntos com alguns locais que deviam ser carregadores e guias, e a datação apontava para cerca de 850 AD. Mas mais recentemente num dos grupos o ADN revela-se particularmente coerente com a população grega levantina que habitava a Síria ou o Líbano. Que procuravam essas gentes da Assíria grega, durante o último alento de Bizâncio sob a gloriosa imperatriz Teodora, antes da conquista árabe ? Seriam emissários bizantinos desencaminhados - e muito - da rota da seda ? Ou talvez mercadores fazendo um desvio para evitar portagens ?


É uma época fascinante. Impérios em convulsão, novos poderes nascentes, gente à descoberta do mundo.

Ler mais:
http://benedante.blogspot.pt/2017/12/the-skeletons-of-roopkund-lake-or.html


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Ano Austríaco II na Casa da Música


Já abriu a venda de bilhetes para 2018 na CdM, um ano onde Bruckner vai ser a estrela, mas também com Haydn, Mozart e Mahler bem presentes. Tanto quanto me parece, poucas opções e nenhum entusiasmo: as opções miserabilistas do costume, que em parte se devem aos escassos recursos financeiros. A pequena Áustria é gigantesca de herança musical, e apesar dos Bergs e Schoenbergs, conseguir-se-ia sempre programar boa música.

Pior ainda é o sistema de venda por assinaturas, este ano objecto de grande promoção com belo catálogo. Já nos anos 16 e 17 dei conta do descalabro de lugares vazios devido a gente que compra por atacado os melhores lugares e depois não vai. Ou dá de prenda a amigos que não estão interessados. Ou oferece como brinde por serviços prestados. Etc. É um processo assassino para quem procura seleccionar concertos por compositor ou por intérprete, e não por "ciclos" - piano, violino, barroco, sinfónica, jazz...

Sei que quase só sobravam lugares maus nos melhores (para mim) concertos, logo a meio do primeiro dia de assinaturas. É um corridinho aflito a gastar centenas de euros, pagáveis em prestações, para conseguir Mahler, Mozart, Mendelssohn ou Sibelius, além do incontornável Sokolov. Para as coisas do Remix Ensemble não faltam lugares, claro.

Bem, cá vão os meus destaques, como habitual:

- as sinfonias de Bruckner: a 7ª a 12 de Janeiro com Sanderling,  a 4ª a 2 de Fevereiro com Inbal,  a 8ª a 16 de Março, a 2ª a 12 de Outubro, a 5ª a 14 de Setembro; nada nos é dito sobre as restantes. Sendo obras massivas, extensas e de fluxo contínuo, que convidam a pairar fora deste mundo, necessitam de muito boa interpretação para evitar a maçadoria e o empastelamento em que descambam com frequência.

- Regressa Paul McCresh (que esteve à frente da Orq. Gulbenkian) em Janeiro: a 21, dirige obras para violino e orquestra de Mozart e Haydn com Huw Daniel, e ainda o Ave Verum Corpus,

- Salve Regina de Handel e cantatas de Bach (BWV 84 e 199), com a soprano Marie Lys mas... sem coro !, a 28 de Março.

- a 8 de Junho um concerto promissor: Arvo Volmer, estoniano, dirige o violinista Benjamin Schmid no 3º concerto para violino de Mozart; na segunda parte, a 5ª de Sibelius. É impressionante a quantidade de bons maestros que a Estónia vem gerando, deve ter uma escola  excelente. Com Olari Elts, Schmid volta a 20 de Outubro para o nº 4 de Mozart.

- as Estações de Haydn, por Leopold Hager - que costuma ser apenas medianamente competente - , solistas sem notoriedade e a prata da casa. Duvidoso.

- a fenomenal 6ª de Maher a 14 de Dezembro, dirige Michael Sanderling

- Sokolov vem  a 10 de Abril, mas já devem sobrar poucos lugares.

há ainda:
- uma palestra de Alfred Brendel sobre Mozart, certamente inperdível
- o jazz de John Scofield e de Joshua Redman, duas surpresas vedadeiramente luxuosas. Quem dera ter convidados desta grandeza na música clássica!



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

40 regras para bem escrever, adaptadas de Umberto Eco e William Safire


Umberto Eco, em La Bustina di Minerva, refere uma lista de 54 regras para bem escrever em inglês da autoria do jornalista americano William Safire (*); lista que Eco adapta para bem escrever italiano em 40 regras. Será presunção minha, mas atrevo-me a adaptá-las de novo à minha lusitana língua, até porque o humor paradoxal de algumas é delicioso. Note-se que as regras nº 4 e 21 são de difícill interpretação.


40 regras para bem escrever, adaptadas de Umberto Eco.

    1. Evitar as aliterações, mesmo que atraiam os trengos.

    2. O conjuntivo não tem de ser evitado, recomendo apenas que seja usado só quando necessário.

    3. Evitar as frases feitas, são caldo requentado.

    4. Exprime-te tal como te alimentas.

    5. Não usar siglas comerciais e abreviaturas, etc.

    6. Recorda (sempre) que os parêntesis (mesmo que pareçam indispensáveis) interrompem o fluir do discurso.

     7. Atenção a não causar... indigestão de reticências ...

     8. Usar o mínimo de aspas possível: não é “elegante”.

     9. Nunca generalizar.

    10. Palavras estrangeiras não fazem bon ton.

    11. Sê avaro de citações. Dizia justamente Emerson: “Odeio citações. Diz-me só o que sabes.”

    12. Comparações são como frases feitas.

    13. Não ser redundante; não repetir duas vezes a mesma coisa; repetir é supérfluo (por redundância entende-se a explicação inútil de algo que o leitor já percebeu).

    14. Só os merdosos usam palavras grosseiras.

    15. Sê sempre mais ou menos especifico.

    16. A hipérbole é a mais extraordinária das técnicas expressivas.

    17. Não fazer frases de uma só palavra. Nunca.

    18. Proteje-te das metáforas demasiado ousadas: são plumagem sobre as escamas de uma serpente.

    19. Coloca, as vírgulas, no sítio certo.

    20. Distingue a função do ponto e vírgula e dos dois pontos: embora não seja fácil.

    21. Se não encontras a expressão adequada, não recorras a expressões dialectais: aí tem bué de gato.

    22. Não usar metáforas incongruentes mesmo que te pareçam "cantar": são como um cisne a descarrilar.

    23. Há mesmo necessidade de perguntas retóricas?

    24. Sê conciso, procura condensar os teus pensamentos no menor número de palavras possível, evitando frases longas — ou interrompidas por frases intercaladas que inevitavelmente confundem o leitor menos atento — a fim de que o teu discurso não contribua para o inquinamento da informação que é certamente (especialmete quando recheado de precisões inúteis, ou pelo menos não indispensáveis) uma das tragédias deste nosso tempo dominado pelos poderes dos media.

    25. Os acêntos nâo devem ser incorréctos nem inùteis.

    26. Não se coloca apóstrofo n'os artigos nem p'r'abreviar .

    27. Não sejas enfático ! E sê parco com as exclamações !!

    28. Nem os piores fãs das barbáries pluralizam termos estrangeiros.

    29. Escreve de modo exacto os nomes estrangeiros, como Beaudelaire, Roosewelt, Niezsche, e similares.

    30. Nomeia directamente autores e personagens de quem falas, sem perífrases. Assim fazia o maior poeta sadino do século XVIII, autor de três volumes de Rimas.

     31. No início do discurso usa o captatio benevolentiae, para agradar ao leitor (mas talvez sejas tão estúpido que não entendes mesmo o que eu estou a tentar dizer). 

     32. Cuida minussiosamente da ortugrafia.

     33. Nem vou dizer-te quão irritantes são as preterições.

     34. Não mudar frequentemente de parágrafo.

           Pelo menos, quando não for preciso.

     35. Não usar nunca plurais majestáticos. Estamos convencidos de que causa péssima impressão.

     36. Não confundir a causa com o efeito: estarias enganado e portanto a cometer um erro.

     37. Não construir frases cuja conclusão não siga logicamente das premissas: se todos fizessem assim, então as premissas resultariam das conclusões

     38. Não indulgir com arcaísmos, hapax legomena ou outros lexemes inusuais, bem como deep structures rizomáticas que, enquanto te agradem como epifanias de différance gramatológica e convidem à deriva desconstrutiva – pior ainda seria se resultassem censuráveis ao escrutínio de quem leia com acribia ecdótica – excedem as competências cognitivas do destinatário.

    39. Não deves ser prolixo, mas também não deves dizer menos do que.

    40. Uma frase completa deve ter.

Algumas regras do original de Safire são demasiado úteis para ficarem esquecidas. Vale a pena ler o original, em que o humor tem um toque inglês. Exemplos:

- Reserve the apostrophe for it's proper use and omit it when its not needed.
- Don't use no double negatives.


(*)Ver aqui:
 http://www.maximumawesome.com/reference/g-safire.htm

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um pouco mais de Ana Hatherly: o sabor do saber


 

Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue.


Un poète baroque a dit:
les mots sont la langue des yeux

Mais qu'et-ce qu'un poème
si ce n'est
un télescope du désir
fixé par la langue ?

le vol sinueux des oiseaux
les hautes vagues de la mer
l'accalmie du vent
tout
tout tient a l'intérieur des mots

et le poète qui regarde
verse des larmes d'encre.



                                      sobe o sabor do saber
                                      acima da indiferença

                                      por onde passa
                                                                o saber
                                                      passa
                                                                o sabor da diferença



Tudo está aqui para alguma coisa, para desempenhar um papel, uma missão, pensamos utilitariamente. Eu, gosto das portas. A porta entreaberta, por exemplo: irá fechar-se? irá abrir-se? dar passagem? Oh subtil porta que tão indiferentemente abres-fechas: nem sei se olho para dentro ou de dentro.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

As Faias da Pedra Bela e outras maravilhas


A floresta mista de faia, bétula, carvalho, freixo, castanheiro e azevinho do Parque do Gerês é um tesouro. Eu estava com receio de que houvesse alguma área ardida, mas não, pelo menos as zonas que agora visitei - Pedra Bela, Ermida e Albergaria - não podiam estar mais esplendorosas.

O contraste das faias com folhagem horizontal amarela ou vermelha com os carvalhos e as bétulas ainda verdes oferece quadros de bosque encantado. Ainda corre água pelas fontes naturais à beira da estrada, a Caniçada está a cerca de 70%, e à volta dos cursos de água o terreno ainda está bem húmido. Deve ser um caso raro, que mais ainda torna precioso o território do Gerês.


Mas neste Outono, quem reina são as fabulosas Faias.



As faias gostam de encostas e vales frios e húmidos. Mas é com sol que exibem o seu melhor.









De súbito, numa curva da estrada, a variedade de cores pode ser gloriosa:





Obras primas.



    Et je m'en vais
    Au vent mauvais
    Qui m'emporte
    Deçà, delà,
    Pareil à la
    Feuille morte.

                           
                            Paul Verlaine


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Ponto de Esperança, para animar


Ponto Esperança - Point Hope.

Viagem virtual ao Ártico [mais uma].

Na costa noroeste do Alasca, uma das zonas mais desoladas e difíceis de habitar do planeta - a natureza é desolada e inóspita, a civilização demasiado longínqua - há uma povoação denominada 'Point Hope', ou 'Ponto Esperança'. Esta contradição talvez venha a explicar-se, com as alterações climáticas, se as zonas árticas passarem a ser mais temperadas.


Point Hope (Tikiġaq) fica numa faixa de gravilha nas terras baixas do litoral a norte do estreito de Bering, tundra ártica semeada de lagunas e durante boa parte do ano coberta de gelo. É aqui que o rio Kukpuk forma um largo delta sobre a costa do Mar de Chukchi.

O nome "Hope" foi atribuido por um capitão da marinha britânica em honra da família Hope, ligada ao mar, mas quem aqui habita desde há séculos é o povo Inuit Inupiat, para quem a aldeia se chama Tikigaq. A península de Lisburne é mesmo uma das áreas povoadas há mais tempo em todo o Alasca.

Point Hope, junto ao vasto Marryat Inlet e ao delta do Kukpuk, zonas de grandes rebanhos de caribú.

Manada de caribús atravessa o rio Kukpuk.

O mar de Chukchi gela quase todo o ano, ficando livre de gelo entre Junho e Setembro, quando as condições já não impedem a largada dos barcos. Os residentes de Point Hope têm uma economia de subsistência dependente dos recursos marinhos.

Baleeiros nativos lançando um umiak

A história de Point Hope foi marcada pela pesca à baleia, pastoreio de manadas de caribou, e comércio de peles. Outros recursos mais raros são as morsas e ursos polares, mas ainda é a tradição baleeira, agora muito regulada,  que sustenta a população.
Umiak com os arpões em posição. Os umiak são feitos com pele de foca sobre uma estrutura em madeira.

Point Hope / Tikigak

Coordenadas: 68º 21' N , 166º 47' W
                     (320 km a norte do Círculo Polar)
População:  ~ 750, Inupiat

A rua principal

A loja cooperativa é a única fonte de bens de consumo.

A "esperança" local deve ter crescido um pouco com a nova escola, bem equipada, assim como o acesso à internet.

A Tikigaq School trouxe uma vida nova a Point Hope; é a segunda maior do Alasca e tem mais de 250 alunos. A sua biblioteca serve uma larga área geográfica.

A Câmara (e Centro Comunitário), em forma de igloo, é o edifício mais marcante da aldeia.


Casa típica e trenó, os haveres mínimos.

Mas o snow scooter vem substituindo os trenós.

Uma família de bons rendimentos: SUV, moto-4 e trenó.

Vestida para o frio.

Hábitos urbanos, para o bem e para o mal.

Rodada de chá nas festas de Junho.

Em Junho o tempo melhora e os dias são mais longos. É por essa altura que se realiza a grande festa anual:

Nalukataq

Significa "atirar ao ar". É a mais divertida das actividades do festival da Primavera dos esquimós Inupiat do Alasca. Uma manta de pele de foca, cosida a uma armação redonda, faz de trampolim. Chama-se ugruk. O lançamento de pessoas ao ar celebra uma boa temporada baleeira. Capitães de barco e tripulação seguram na armação enquanto os habitantes mais corajosos se tranformam em projécteis.



Durante o festival também não falta drum dancing, as tradicionais danças de tambor.

Um belo objecto, o tambor Inupiat.

Uma outra arte que tem tido algum sucesso é a da cestaria, recorrendo ao aproveitamento de fibras e ossos de baleia. Os cestos de Point Hope atingem preços elevados.
Uma cabeça de urso em osso de baleia a encimar um cesto de Harry Hank, Point Hope.


Nesta latitude os dias e as noites e as variações de luz são estranhas e surpreendentes para quem vive mais a sul.

Point Hope ao sol da meia-noite.

O anoitecer logo seguido de amanhecer...

A forte simbologia dos ossos de baleia.

Luz da meia noite no mar de Chukchi :


'Umiaks' sob a aurora boreal

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A Esperança de Point Hope é sobretudo a de que o petróleo explorado logo ali mais a Norte não dê cabo da terra, da Natureza, da autenticidade e da cultura, das pessoas.