quarta-feira, 21 de junho de 2017

Escuridão, segundo Alistair MacLean


Uma das minhas leituras de Verão é o regresso ao clássico de aventura no mar (ou no gelo) com crime incluído que é a 'receita' de Alistair MacLean, se é permitido falar de receita àcerca de quem escreve tão bem. O escocês Alasdair MacGill-Eain bem merecia um Nobel ( ou se calhar não...) pela quantidade de livros fantásticos, humor refinado, língua inglesa trabalhada com grande invenção e mestria: Os Canhões de Navarone, Ice Station Zebra (obra prima), When Eight Bells Toll, Where Eagles Dare, Bear Island... 

Muitos deram grandes produções cinematográficas, mas nos filmes só resta o enredo (adaptado!); a língua inglesa, os diálogos intrincados e cheios de inuendos, as descrições, a vasta cultura de MacLean têm de ser lidas, e no original.

Depois de um início caótico, quase indecifrável, entrei em velocidade de cruzeiro no "When Eight Bells Toll"; mete espionagem, tráfico, corrupção, barcos criminosamente afundados, um grego residente no seu iate que lembra o Rastapopoulos de Tintin e o seu 'Shéhérazade' - podre de rico, velho casado com jovem actriz mundana depois da primeira mulher misteriosamente morta, recepções de gente da alta a bordo com muito álcool a rodar. Tudo nas belas Hébridas, ao largo de Oban, na Escócia profunda. Parece James Bond ? Talvez, mas muito mais bem escrito.

A ameaça mortal surge logo de chofre :

"Very slowly, very steadily, I raised both hands, palms outward, until they were level with my shoulders. The careful deliberation was so that the nervously inclined wouldn't be deceived into thinking that I was contemplating anything ridiculous, like resistance. It was probably a pretty superfluous precaution as the man behind that immobile pistol didn't seem to have any nerves and the last thought I had in my head was that of resistance. The sun was long down but the faint red after-glow of sunset still loomed on the north-west horizon and I was perfectly silhouetted against it through the cabin doorway."

O capítulo 4 arranca assim:

"As the saying goes in those parts, it was as black as the earl of hell's waistcoat. The sky was black, the woods were black, and the icy heavy driving rain reduced what little visibility there was to just nothing at all. The only way to locate a tree was to walk straight into it, the only way to locate a dip in the ground was to fall into it."

Um escuro bem pintado. Nenhuma foto ou pintura conseguia tal...

O filme, dizem, foi um flop; mas com Anthony Hopkins (muito jovem) no papel principal, com a sua dicção, fleuma e olho azul, sinto-me tentado a mandar vir ;)

Contracena com quem ?


Ena !

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Jardim, Música, Etimologias, Xadrez, Stevenson, e outras salvações do mundo segundo Borges


Los Justos

Un hombre que cultiva su jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología. 
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
El tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.


Jorge Luís Borges, "La cifra".
Obras completas II, Buenos Aires, 1989


terça-feira, 13 de junho de 2017

Merton College, o mais antigo e prestigiado, em visita guiada


Se Oxford é (alegadamente...) a melhor Universidade do mundo, e o Merton College é o melhor de Oxford, este é então o top of the tops do ensino universitário no planeta.

Nasceu em 1264. A Universidade de Lisboa / Coimbra seria em (1290) / 1537.

A parte mais nobre e antiga do colégio: o Hall, à esquerda; os aposentos por cima do arco eram destinados a hóspedes convidados; o grande janelão arredondado em múltiplos painéis do 1º andar é de uma sala de conferências, também chamada "sala do tradutor" (translator's room).

Sempre entre os três melhores, muitas vezes no topo, o Merton College é (alegadamente, de novo) o mais antigo (1264) da cidade universitária. Nota-se nas paredes, gastas e encardidas, nos telhados, a precisar de restauro, nos interiores austeros. Consta também que aqui se trabalha mais e se brinca menos; noutros colégios vi os relvados cheios de alunos com livros com auriculares, portáteis e telemóveis, em grupos com ar de quem está divertido mesmo a estudar:

'Quad' relvado do Brasenose College

Mas no Merton, imagino os alunos todos nos gabinetes de cursos, em geral pouco numerosos, a ser 'torturados' por docentes severos e exigentes. Ou não - os cursos são mais à base de debates e apresentações em gabinete, assim o Merton produziu gente como Tolkien e T.S Eliot (professor de literatura inglesa entre 1945 e 59), vários prémio Nobel (Física, Química, Medicina. Literatura), o matemático Andrew Wiles que conseguiu provar o último Teorema de Fermat. O aluno famoso mais antigo foi William of Ockham (Guilherme de Ockham, o da navalha), grande pensador e teólogo medieval.

Plano de Merton College (parte velha).

A Merton Street é uma rua estreita, pedonal e calçada a pedra.

O portal de entrada ("Lodge gatehouse") é do séc. XV; reinava Henrique V, que legislou permitindo a construção da torre que controla o acesso.

Nem todas estas fotos são minhas - havia zonas de acesso interdito ao público. Mesmo assim foi um gosto intenso conseguir, pela primeira vez, palmilhar esta jóia da História.

O pátio de entrada ('Front Quad'), irregular, sem jardim, ainda não obedece ao modelo rectangular que viria a ser regra.

O Merton College foi desde início totalmente autónomo dentro da Universidade, concebido como uma comunidade que trabalha para realizações académicas mais do que um local de alojamento de estudantes. Fundado em 1264 por Walter de Merton, Chancellor de Inglaterra, mais tarde bispo de Rochester, começou por admitir apenas 20 alunos (fellows).

Entrada para o moderno auditório T. S. Eliot, no Front Quad. Janelas múltiplas, gradeadas e divididas por mainéis em pedra, são norma em todos os edifícios.

O Salão (Hall) e a Capela foram completados ainda no séc. XIII. A seguir, o Mob Quad, o quadrãngulo mais antigo, foi terminado em 1378, mas a Biblioteca já estava pronta em 1373.

A Capela


A grande janela do lado nascente, c. 1295, com armas de Henrique III, um belo trabalho do gótico inglês.


Os trabalhos de construção da capela começaram em 1280. A dimensão generosa do coro mostra que havia uma previsão de crescimento a longo prazo.

A janela de nascente vista de dentro.


Há sete pares de janelas laterais, a maioria com os vitrais de origem, entre 1289 e 1296, a que se foram adicionando outros até ao séc. XV.
.
Vitrais dos séc. XIII e XIV.



Fellow's Quad, o pátio mais nobre.

Em frente, o 'Dining Hall'.

O 'Hall' foi o primeiro edifício do colégio a ser construído, era lá que decorriam as aulas e as refeições (como actualmente). Muitas vezes reconstruído, resta pouco do original.


Translator's Room ou JCR (Junior College Room), uma das salas mais antigas.

Mob quad

O mob quad talvez seja o mais antigo quadrângulo de Oxford, que modelou os seguintes. Era onde se alojavam os estudantes juniores, mais instáveis (mobile vulgus - mob).

Dele faz parte a antiga biblioteca e os arquivos, o coração do colégio durante 600 anos.

A Biblioteca do Mob ocupa duas frentes em esquina do primeiro andar no mob quad. A antiguidade do edifício é bem visível.

A Biblioteca antiga do Merton College - mob library, upper library.


É a mais antiga biblioteca académica do mundo em funcionamento desde a fundação.


A Biblioteca não é muito grande nem imponente - os recursos financeiros eram limitados - mas é íntima e preciosa; instalada em 1373, tem mais de 300 manuscritos medievais.


Os vitrais são uma das maiores riquezas decorativas.



Sala original dos arquivos.

Metafísica de Aristóteles comentada por Averroes (Ibn Rushd). Pertenceu a Richard de Cleanger, 'Fellow' de Merton, 1331.

Os vitrais da biblioteca:
http://www.cvma.ac.uk/jsp/search.do?&sortField=WINDOW_NO&sortDirection=ASC&nextPage=1&rowsPerPage=20


Neogótico vitoriano: St. Albans Quad e os jardins.




Inevitavelmente, cricket.



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Saber mais:
https://www.merton.ox.ac.uk/
https://readtiger.com/wkp/en/Merton_College,_Oxford






Tenho uma certa nostalgia, é verdade, de não ter tido uma vida universitária particularmente gloriosa ou excitante, nem do ponto de vista do ensino, nem no ambiente académico e boémio. Foi tudo um bocado anémico, num país que só há poucos anos vem saindo de uma longa anemia sistémica. Era a mim que cabia a decisão de procurar noutro lado, bem sei, mas acomodei-me. Bem feito, portanto.




quinta-feira, 8 de junho de 2017

Como se tivesse ido ouvir DiDonato a Oviedo cantar pela Paz


Estive para ir, sim, com bilhetes comprados e tudo. Mas a vida passa rasteiras com cada vez maior frequência, e tive de cancelar.

Joyce DiDonato, mezzosoprano
Il Pomo D'Oro
dir. Maxim Emelyanychev
En guerra y paz.
Armonía a través de la música


Foi na terça-feira, dia 6.
Um programa encenado e coreografado.

Era assim o Programa:

GUERRA
G. F. Händel (1685-1759): “Scenes of horror, scenes of woe”
(Storgé), de Jephtha, HWV 70
L. Leo (1694-1744): “Prendi quel ferro, o barbaro!”
(Andromaca), de Andromaca
E. de’ Cavalieri (1550-1602): Sinfonía, Rappresentatione di
Anima et di Corpo (instrumental)
H. Purcell (1659-1695): Ciaccona en sol menor para tres violines
y bajo Z730 (instrumental)
H. Purcell: “When I am laid in earth” (Lamento de Dido),
Dido and Aeneas. Z626
G. F. Händel: “Pensieri, voi mi tormentate” (Agrippina),
Agrippina HWV 6
C. Gesualdo (1566-1613): “Tristis est anima mea”, Tenebrae
Responsoria nº 2 (instrumental)
G. F. Händel: “Lascia ch´io pianga” (Almirena), Rinaldo
HWV 7

PAZ
H. Purcell: “They tell us that you mighty powers” (Orazia),
The Indian Queen Z630
G. F. Händel: “Crystal streams in murmurs flowing”
(Susanna), Susanna HWV 66
A. Pärt (1935-): Da pacem, Domine (instrumental)
G. F. Händel: “Augelletti, che cantate” (Almirena), Rinaldo
HWV 7
G. F. Händel: “Da tempeste il legno infranto” (Cleopatra),
Giulio Cesare HWV 7


Um vídeo do ARTE com a récita no Liceo de Barcelona pode ser visto aqui.

Falta o principal, ter ido, mas mesmo assim posso dizer que - foi uma grande noite de música, pois claro ! Não sei se vai dar para ir à Gulbenkian no ano que vem, veremos. Atrasada embora, será uma consolação.

Sobre o concerto, Joyce DiDonato explica-se, convincente e categoricamente:






Deixo duas prendas magníficas - os dois encores do concerto de Oviedo.

1. Jommelli, Sprezza il furor del vento.


2. R. Strauss, Morgen ! - espantoso violino dos Pomo D'Oro!



Críticas, comentários:
http://www.beckmesser.com/
http://www.elcomercio.es/culturas/musica/201706/07/joyce-didonato-musica-entre-20170607000552-v.html




segunda-feira, 5 de junho de 2017

O tranquilo Tamisa que aqui se chama - the Isis !


A denominação celta 'Tamesas' foi romanizada como 'Tamesis',  e com o passar dos anos acabou truncada para 'Isis' entre Oxford e Dorchester; os estudantes mantêm com gosto o culto dessa tradição, apesar da actual ressonância antipática. The Isis é o curso de água onde os universitários remam, e foi nome literário do Tamisa para Carroll, C. S. Lewis, Phillip Pullmann...


É um rio vagaroso, gentil, de margens planas. A maior beleza é a do arvoredo em redor e reflectido. Passear nas margens não é nada de especial - nos poucos percursos pedonais de jeito abundam ciclistas apressados; é sobretudo um curso de água para prática de remo, e para uns poucos anti-sociais ou excêntricos é uma rua onde morar, numa daquelas estreitas barcas de canal típicas de Inglaterra, que também se encontram no afluente Cherwell





" The Isis " foi também o título óbvio de uma revista estudantil, generalista (mas tendencialmente mais dedicada a ensaios, poesia e opinião), moderadamente provocatória, excêntrica e humoristica. Nasceu na Universidade em 1892 ( o século XIX foi mesmo o século das inovações !) e está quase a atingir 2000 números. Um dos requintes é a apresentação criativa, ela própria obra de artes gráficas.
http://isismagazine.org.uk/
https://www.facebook.com/isismagazine/

Actualmente já não é um semanário, mas uma publicação de fim de termo lectivo, com um website.

Um exemplo do design (sempre diferente de revista para revista) é a apresentação do índice:





Páginas de poesia:


Um festa de design gráfico e irreverência.



Ao contrário daquela coisa repelente que dá pelo mesmo nome, por desgraçada coincidência, The Isis é um triunfo civilizacional. Viva o Isis !