segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O Fogo e o Gelo, o desejo e o ódio


O Fogo e o Gelo, de Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favour fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

                                       Dizem que o mundo acaba em fogo
                                       Outros dizem em gelo.
                                       Por tudo o que sei do desejo
                                       Estou com quem escolhe o fogo.
                                       Mas se tivesse de morrer duas vezes
                                       Penso que conheço bastante do ódio
                                       Para dizer que na destruição
                                       O gelo tem grande efeito
                                       E seria suficiente.


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Mas concentremo-nos no fogo, para já. Ainda há tanto por fazer.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O Homem Novo soft deste novo Orçamento.


Foi o mito de um Homem Novo que alimentou revoluções e ditaduras. Muitos filósofos - Heidegger, Gramsci, Adorno, Marcuse - sustentaram esse objectivo sem se darem conta ( ou deram ?) de que promovia regimes destrutivos do próprio Homem. Foi o desastre nazi e o desastre soviético, o da China maoísta e o da Cuba guevarista, e agora o desastre islâmico do Daesh/Isis. Também a Igreja católica prega o Homem Novo que advirá com a cristandade universal, tão carneiro no rebanho como qualquer dos anteriores. Desconfiemos, portanto.



A democracia moralista reinante na Europa e no Ocidente tem outra aproximação ao Homem Novo, mais soft, apoiada no "politicamente correcto" que nasceu do relativismo e do ecologismo. Diz-se igualitária, ecológica e social, mas não deixa de ser uma imposição estatal de um modelo de vida que culpabiliza como criminosos os que não cumprem, fazendo-os pagar caro nos impostos e na censura social.

O Homem Novo da moda actual, plasmado no nosso novo Orçamento de Estado, é ciclista ou usa transporte público não poluente, é vegetariano, magrinho e saudável, faz jogging, recicla cuidadosamente, compra no comércio justo, faz campismo de aventura; não fuma, não bebe, não consome açúcares nem comida processada; instalou energia solar para aquecer a casa e trata um cão exemplarmente como irmão animal, um igual. Não tem vícios, é completamente  insípido. E o regime gasta milhões em propaganda - revistas, TV, cartazes na rua - a apelar ao seguimernto do canon; para Homem Novo soft, um Big Brother soft.


Felizmente, a ficção dita "cientifica" e o cinema têm-se encarregado de divulgar outras imagens do Homem Novo que será o nosso futuro: mais ou menos o mesmo que agora ! Robotizado, informatizado, mas sempre fraco ou genial, criminoso ou herói, gordo ou magro - nunca carneiro.

O verdadeiro homem não está no futuro, não é um objectivo, um ideal a que se aspira; está aqui, no presente, existe mesmo: seja eu quem for, alegre ou enfermo, criança ou velho, confiante ou céptico, a dormir ou bem desperto, sou Eu. Eu sou o verdadeiro Homem.
                                                                                                                                              Max Stirner


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

De barco num dia de chuva aportei à ilha de Ons


Nunca tinha ido à ilha de Ons, ao largo das rias de Pontevedra e Arousa. Feita a reserva no último barco da época, no último domingo de Setembro, chegamos à "taquilla" de embarque numa manhã chuvosa. Da "taquilla" até ao cais foram mais de 500 m à chuva. No dia anterior (e no dia seguinte) o sol brilhava...

O 'Delfin Primero' chegou pontualmente.


O janelão da popa é o melhor posto de observação abrigado.

Zarpámos mar bravo adentro...


E 40 minutos depois encostámos ao cais de O Curro.


O Curro é o núcleo principal da ilha, onde se concentram a maioria dos serviços: restaurantes, alojamento, administração, correio e igreja. Perto ficam algumas aldeias, que no total alojam os 70 a 80 residentes.

Desembarcámos debaixo de copiosa chuveirada, que vinha soprada de vento forte. Correr pelo molhe a procurar abrigo...


Estamos na ilha.


Depois de secar a roupa e confortar o apetite na povoação, subimos o carreiro que leva às aldeias e aos trilhos pedonais da Natureza. A seguir a várias curvas ascendentes, lá de cima vê-se O Curro e o paredão.


Pinheiros esguios, que mais parecem mansos demasiado crescidos.

O caminho da falésia deve ser espectacular em dia de tempestade no mar:


Punta do Castelo.


A ilha tem 6 km de extensão e só dois de largura máxima. Para além da fauna e flora protegidas, as rotas de exploração sinalizadas são fáceis e curtas, o que faz deste Parque Natural um bom passeio ecológico para gente idosa.

'Retama' (cytisis insularis)

Seguimos um dos percursos que entra na cobertura vegetal, ora bosque fechado cheio de musgos, ora vegetação rasa de arbustos, ervas e fetos. Os arbustos mais frequentes são a camarinha, o abrunheiro, o louro e a endémica retama ou giesta de Ons (cytisus insularis).

As Ilhas Ons são um dos mais importantes Parques Naturais de Espanha. Pena que fora de Galiza, e mais ainda fora de Espanha, ninguém saiba da sua existência. Não há estradas porque não há automóveis, só bicicletas, motorizadas e uns (poucos) tractores que ajudam nas quintas. Nas bermas, vales e planaltos da ilha há bosque, e na costa uma ou outra praia, muito bonita, em estado quase selvagem.


O carvalho-negral é a árvore mais abundante. Seguem-se pinheiros e outras variedades de carvalho. Salgueiros (incluindo salgueiro chorão e salgueiro negro), amieiros e freixas concentram-se junto a fontes e regatos. Alguns, poucos, sobreiros.

Musgos.


Salgueiros.

Por instantes parecia clarear.

Bem abrigado da chuva, este ijhéu.

Zona de lazer, na 'Punta da Figueira Brava'.


De súbito, do meio do arvoredo surge a praia:


Area de Cans, uma areia muito branca e fina como em toda a ilha. Deve ser óptima com sol.

Areal extenso e em crescente.


E estava na hora do barco de regresso.


Mais gente no regresso do fim de semana.


Visitado mais um cantinho deste mundo admirável, com vontade de regresso num dia luminoso, até porque a visita foi confinada ao centro da ilha. Mesmo assim, valeu como experiência.

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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Coisas que salvam a alma, segundo Silvertree


Já sigo há algum tempo o Silvertree, um blog português dos que valem a pena. Partilha com este meu Livro o fraquinho (enorme) por Londres e a admiração por Italo Calvino.

Desta vez comoveu-me com a Amora Madura:






quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A Capela de Rosslyn, um Livro em pedra.


A primeira vez que li sobre Rosslyn foi, confesso, no Da Vinci Code de Dan Brown, onde ele descrevia a decoração exuberante e a estranheza do lugar. Não sabia eu que já há décadas a capela atraía e intrigava artistas, escritores e estudiosos com o simbolismo das esculturas em pedra. Entretanto tornou-se lugar de peregrinação de turistas de todos os cantos da Terra.


A capela de Rosslyn é um templo gótico do séc. XV a cerca de 10 km a Sul de Edimburgo, na vila de Roslin. Tem sido associada aos Templários e à Maçonaria, mas as conexões são vagas e improváveis (a Maçonaria só chegou à Escócia três séculos mais tarde).

Foi fundada por William Sinclair, da família escocesa St. Clair, das ilhas Orkneys; os Sinclair eram cavaleiros Cruzados da ordem dos Templários, descendentes de Vikings Normandos, provavelmente portadores de relíquias no regresso da Terra Santa. A pedra de fundação foi lançada em Setembro de 1446, tendo o templo sido dedicado a S. Mateus, pelo que o seu nome oficial é The Collegiate Church of St Matthew the Apostle.



A Rosslyn Chapel é relativamente pequena e ligeiramente assimétrica. Há a certeza de que Sinclair pretendia um templo mais vasto, de que a capela seria parte, mas o projecto foi interrompido (ver planta*).

Os motivos mais utilizados são flores (incluindo fleur-de-lys), estrelas, folhagem variada e exótica, conchas, cenas do Antigo Testamento, dragões, cavaleiros, até mesmo a Árvore da Vida da mitologia nórdica. Não faltam motivos monstruosos, grotescos, como o "homem verde". Há quem compare esta exuberância a um livro em pedra, uma Biblia universal esculpida que Sinclair quis deixar numa época (medieval) em que os livros não estavam ao alcance do homem comum.

As "Sete Virtudes" ilustradas numa arquitrave ( com um erro do pedreiro, pelo que dizem, colocou Avareza no lugar de Caridade...)

É particularmente notável o tecto em pedra esculpida da Lady's Chapel, com arcos de nervuras em estrela de cinco pontas que convergem numa pedra octogonal suspensa esculpida como se fosse uma lanterna.


Um enigma são os cubos que decoram muitos dos arcos que sustentam o tecto. São também esculpidos com linhas geométricas.


Serão notas de uma pauta musical ? Já houve quem tentasse reescever essa música; embora com técnicas demasiado elaboradas, não deixa de ser uma audição surpreendente **.

Reprodução de um dos cubos de Rosslyn. "O Jogo dos Cubos de Pedra" ? Hesse gostaria da ideia.

O interior é uma festa visual, a decoração excessiva chega a desorientar o nosso olhar. O tecto da nave, em abóbada de berço com aresta, é constituído por quatro painéis em pedra de diferentes flores e um de estrelas.


Talvez o mais deslumbrante seja o Apprentice Pillar, uma coluna decorada associada a uma lenda que a atribui à arte de um aprendiz, morto pelo mestre despeitado. Mas a elaborada e requintada decoração não pode ter sido obra de nenhum aprendiz, é certamente obra de Mestre.


O 'Pilar do Aprendiz', entrançado com vinha esculpida em espiral, que sobe a partir da boca de um dragão na base.

A Árvore da Vida ou da Sabedoria, Yggdrasil, nasce da Terra e os seus ramos sustentam os Céus ( ou o Cosmos), mas as suas raízes estão a ser mordidas por dragões. Vale a pena saber mais, há muita informação na net.

Na arquitrave do pilar, uma sentença atinada :
"Forte est vinum, fortior est rex, fortiores sunt mulieres: super omnia vincit veritas"


Três bons links:
http://www.rosslynchapel.org.uk/
http:/www.bbc.co.uk/religion/religions/christianity/places/rosslynchapel_1.shtml
https://britishheritage.com/scotlands-mysterious-rosslyn-chapel/

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*Planta

** A música dos cubos cimáticos de Rosslyn, por Stuart Mitchell:


domingo, 1 de outubro de 2017

Dia da Música - algumas audições que perduram.


À falta de um concerto como devia ser, os discos que vieram cá ter recentemente e vão sendo ouvidos - alguns merecem bem várias audições.

Vivaldi em destaque em duas gravações:
-- sonatas para flauta solo, com Lorenzo Cavasanti acompanhado  no baixo contínuo (violoncelo, cravo ou orgão).(Arcana, 2013)
-- Árias e Concertos, com a mazzo Kristina Hammarström e o Concerto de' Cavalieri. A voz é muito precisa e bonita, a ária Di Verde Ulivo incomparável. (Sony/HM, 2014).

-- para quem gosta de clarinete, um disco magnífico de Sharon Kam a interpretar Mendelssohn, Spohr, Weber e ... Rossini !

-- dos irmãos Wranitzky (Vranický), violinistas e compositores da Morávia (actual Rep. Checa), três obras da escola de Viena, onde praticaram com Haydn e Mozart. Mais notável o concerto para violoncelo de Paul (Pavel), com a solista Chiara Enderle; obras dirigidas por Howard Griffiths.

-- o incomparável piano de Murray Perahia nas suites francesas de Bach, disco justamente premiado pela Gramophone que nunca cansa ouvir; destaco as nº 4, 5 e 6, do segundo disco.

-- Mozart por Alessandrini com o piano de Olivier Cave (concertos nº 5,13,25), muito à italiana; uma refrescadela das interpretações tradicionais que pode não ser ao gosto de todos mas a que não falta moto e brio. (alfa, 2016)

-- clássicos por um Mestre: a 2ª e a 6ª de Beethoven com Bernard Haitink a dirigir a LSO; a novidade está 'só' na perfeição. O som digital (2006, Barbican) ajuda.

Discos vocais:


-- obviamente Didonato, em mais um prémio Gramophone no já celebre In War and Peace, que virá à Gulbenkian em 2018.

-- a Esther dos Dunedin Consort, que revitalizaram uma ópera algo esquecida de Handel, recheada de árias e coros como só ele sabe. Já aqui falei desta gravação.

-- finalmente, o disco editado na Hyperion pelo barítono Matthew Rose com a orquestra Arcangelo - espantosa orquestra ! uma revelação - "Arias for Benucci", com obras de Paisiello, Salieri, e sobretudo Mozart, ex.  Il core vi dono. Uma voz e uma dinâmica fantásticas, sinto-me frente ao palco ao ouvir o disco.


Em vídeo, só tenho ouvido ( e basta, é fabuloso) o DVD em que Harnoncourt dirige o Concentus Musicus em obras litúrgicas de Mozart. As vozes (Sylvia Schwarz!), o côro, são coisa angelical, mas o som da orquestra é mais que isso, é divino ! Foi no festival de Salzburgo, em 2012.

Tenho que encerrar com música, claro; primeiro, do CD de sonatas para flauta de Vivaldi por Cavasanti:


Das suites francesas por Perahia, a Gigue da nº 5:



Agora ao vivo com Sharon Kam a exibir boa pirotecnia no clarinete no op.74 de Weber (III):



Mas outra coisa além de talento é atingir o sublime, como é agora caso na música sacra de Mozart por Harnoncourt e o Concentus Music em 2012. Fica aqui só o vídeo promocional com uma série de excertos:




sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Barcela, a praia mais linda do mundo 'as I know it'


Já lá vão muitos anos, descobri as praias do Grove, "playas a todos los ventos", a dar para a Ria onde centenas de plataformas mexilhoeiras decoram as águas muitos azuis que banham areais pristinos de areia fina, clara, limpissima. Conchas pequenas de múltiplos moluscos formam faixas deixadas pelas marés, búzios e caracóis de todas as cores, lapas de todos os tamanhos, mexilhões e belissimas conchas de Santiago, e beijinhos* em fartura, fáceis de encontrar. Um gozo.

Antes da península, a Pragueira já é uma aproximação ao paraíso - um arco extenso de areias brancas e planas, rochedos cheios de vida, águas que deixam ver os fundos dourados ou esmeralda.

Cormorans na Pragueira.


Depois a Lanzada, com areal a perder de vista e uma esplanada para almoço marinho com vistas.


Na península, é a Barrosa, a Area Grande, a Barcela, a Area das Pipas. De todas, a Playa de A Barcela é a minha escolha, a mais linda do mundo que conheço. Estive lá agora a matar saudades.



Entre o pinhal e o mar povoado de bateas, um paraíso de sossego e natureza, cores e sons.


Água bem fresca, claro, mas tão suave como um lago.


Onde a costa fazia ũa enseada 
Curva e quieta, cuja branca areia 
Pintou de ruivas conchas Citereia


Em poucos minutos uma colheita abundante :)

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* Trivia monacha, cowry/cowrie shells, porcelaine grain de café - gastrópode das praias atlânticas ocidentais.