domingo, 31 de dezembro de 2017

O valor dos Livros, segundo Hermann Hesse


Na despedida do ano, um poema com uma chamazita de esperança.

Livros [Bücher]

Nem todos os livros do mundo
te darão felicidade
embora revelem, em segredo,
como voltares a ti mesmo.

Tudo o que é preciso lá encontras,
o sol, as estrelas, a lua,
pois a luz que procuras
já dentro de ti habita.

O saber que tanto buscaste
pelas bibliotecas
brilha já em cada página -
porque agora é teu.


      Alle Bücher dieser Welt
      Bringen dir kein Glück,
      Doch sie weisen dich geheim
      In dich selbst zurück.

      Dort ist alles, was du brauchst,
      Sonne, Stern und Mond,
      Denn das Licht, danach du frugst,
      In dir selber wohnt.

      Weisheit, die du lang gesucht
      In den Bücherein,
      Leuchtet jetzt aus jedem Blatt –
      Denn nun ist sie dein.


                                                 Hermann Hesse



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Pergunto eu: como poderemos algum dia passar sem livros? Que nova tecnologia mediática despertará assim a luz que vive no fundo de nós ?

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Top 2017 Livro de Areia - o que ouvi e li de melhor este ano


Balanço anual, vagamente anacrónico e, claro, fora do mainstream.

Livros:

In the Kingdom of Ice, de Humpton Sides

Um relato vivo, muito documentado e bem narrado (depois de uma loooonga introdução) da aventura ártica do Jeanette, o veleiro de destino trágico que levou uma heróica expedição ao Pólo Norte pelo Mar de Bering a mais uma catástrofe nos mares gelados. Deixou vários nomes para a História - as Ilhas de De Long, uma das quais a ilha Jeanette.

To the Back of Beyond, no original alemão Weit über das Land

Dos livros de Peter Stamm que li, todos na tradução inglesa de Michael Hofmann, este é sem dúvida o melhor. Um cidadão normal, integrado e 'realizado', abandona a família sem qualquer aviso prévio, num impulso súbito, e vai mundo fora como um eremita em viagem. Sem razão aparente, três vidasentram em convulsão, Até ao 'retorno do filho pródigo', ou talvez não, Stamm usa a ambivalência de forma estranha, irreal.

463 tisanas, de Ana Hatherly

Imprescindível ! Talvez a leitura que mais me surpreendeu, palerma de mim que só agora o descobri. Um "Livro do Desasossego" no feminino e actualizado à modernidade pós-25 de Abril.

Jean d'Ormesson, Comme un chant d'espérance

Um inteligente e sábio crente em Deus, coisa rara. A primeira parte do livro é uma deslumbrante exposição do estado do conhecimento científico sobre o Universo, das muitas questões ainda em aberto. Depois vem o que eu gosto menos: porque apesar de tudo isso d'Ormesson escolheu, ou sentiu, a necessidade de Deus - para ele, não é "apesar de tudo isso" mas "também por tudo isso". Respeitável, mas não convincente.

Mais uma colectânea traduzida de Yeats, bilingue, na Relógio de Água.

Though leaves are many, the root is one;
Through all the lying days of my youth
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth.


                                Sim, agora posso definhar a caminho da verdade.

DVDs

'Wallander', série da BBC TV

Talvez a melhor série policial de sempre na TV, que não consegui ver na íntegra quando passou  cá. Kenneth Branagh incarna magistralmente um polícia sueco com mal de vivre a quem continuamente caem nas mãos crimes absolutamente cruéis e desoladores. Dirige com muita mestria Henning Mankell. Um entretimento requintado para domingos chuvosos.

Soie, de Alessandro Baricco

Também só agora vi este filme realizado em 2007 por François Girard, adaptação ao cinema do belo livrinho de Baricco. Com Keira Knightly excelente de ternura, a bela Sei Ashina no papel da sedosa apaixonada do viajante mercador de bicho da seda, o filme é (classicamente) lindo do princípio ao fim, só Michael Pitt destoa. É um daqueles casos em que é preciso não ligar nada ao que dizem os críticos, mesmo que seja verdade que o filme não respeita nadinha o livro.

Concertos

O Orfeo, com J. E. Gardiner e os Monteverdi Choir, a que assisti no Usher Hall.

Ouvir o mediterrânico Monteverdi do séc. XVII na nórdica Edimburgo em 2017 é uma experiência da universalidade e perenidade desta música. Gardiner no seu melhor.

Beatrice Rana na CdM

Um serão com as Variações Goldberg assim tão bem tocadas é um previlégio raro.

Sokolov também na Casa da Música

A sonata nº 32, op. 111 de Beethoven, inesquecível, sublime.


Michael Sanderling veio dirigir a Sinfonia Alpina

A Orquestra do Porto - Casa da Música saiu-se muito bem da difícil e monumental Sinfonia Alpina de Richard Strauss; Michael Sanderling deslumbrou, foi apoteótico.

CDs

Arias para Benucci

O barítono Matthew Rose e o agrupamento Arcangelo gravaram em 2015 para a Hyperion um CD magnífico que este ano ouvi. Música de Mozart, gloriosa, irresistível.

John Eliot Gardiner e a LSO nas Sinfonias de Mendelssohn

A London Symphony começou em 2016 um ciclo de gravações das sinfonias de Mendelssohn dirigidas por Gardiner; provavelmente passam todas a ser primeira escolha:
Sinfonias nº 1 e 4, 2016
Sinfonia nº2, Lobgesang, 2017

Fernando Sor, Menuettos, por Agustín Maruri, 2005

O génio da guitarra de Fernando Sor, uma das pessoas em que eu mais gostava de incarnar. Tocar assim é um gosto para toda uma vida, e quando a escrita é tão requintada como a de Sor, estes Menuettos de sonata são pérolas, das que se levam para a ilha deserta.


Bach, concertos para violino, Dunedin Consort

De 2015, esta gravação com a violinista Cecilia Bernardini e os escoceses Dunedin Consort - onde o primeiro violino é o "nosso" Huw Daniel (da orq. Barroca da CdM) - obteve cinco estrelas de toda a gente, o Guardian escreveu 'so many things to marvel at '. Só ouvi este ano. Sou um atrasadinho.

Gary Peacock trio, Tangents, 2017

Típico ECM no seu melhor, jazz como é impossível não gostar, clássico mas creativo, suave aqui, trepidante ali, mas nunca dissonante, ruidoso, atonal ou electrónico. E estes três tocam como deuses, herdeiros do trio que ficou célebre (Peacock com Jarrett e DeJohnette).

Max Richter, Sleep -  2015, DG

Há quem ache Max Richter uma fraude, um primitivo minimal repetitivo sem valor - o que eu penso se pode atribuir a Michael Nyman, Wim Mertens, Ludovico Einaudi e outros 'chatos' do género. Richter é surpreendente, tem uma fértil imaginação para criar ambientes pela repetição exaustiva - valorizando o silêncio - e não compõe "sempre a mesma coisa" como os Nymans, Mertens ou Einaudis. Este Sleep é uma obra de fôlego de música contemporânea, para se ouvir integralmente do princípio ao fim; e o Three Worlds, este já de 2017, uma promessa do que ainda mais elaborado poderá vir.

Como é costume, deixo uma sobremesa requintada:  Agustin Maruri numa bela peça para guitarra renascentista.



Desejos de boas leituras, audições e visionamentos para 2018 !


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Post de Natal, ou melhor, God Jul !


Não sei porquê, mas o Natal a norte tem mais encanto. Será pela neve, pela longa noite escura iluminada de (discreta) decoração, ou porque os cânticos são mais bonitos, talvez pelo contraste do frio lá fora com o calor nas casas...

Recolhi imagens da quadra em Uppsala, uma das mais belas cidades escandinavas. Lá o Natal chama-se Jul - o Yule da tradição escandinava, que vem dos povos nórdicos pré-Cristãos, festa pagã de fogo a celebrar o solstício de Inverno e a crescente duração diária da luz do Sol.

A palavra deriva do germânico antigo (via Gótico), e deu em faroês e islandês jól, deu ýlir em nórdico antigo, yule em inglês, e nas outras línguas jul. Há uma conexão com Odin. que era também chamado jólfaðr ("yule father"), Jòlnir ou Ýlir.
Viagem:

A Catedral e o rio Fyris


A rua principal, Svartbäcksgatan

Centro histórico

Mercado junto à catedral.

Lussekatter, pãezinhos de açafrão.

Os lussekatter são doces populares como cá o bolo-rei. Lusse é de Lucia - Sankta Lucia é também festejada na quadra durante o Advento. Antes do calendário gregoriano, as festas (dia 13) eram muito próximas do solstício (dia 22), e "Lucia" tem a ver com Luz... daí o culto. Por cá existe ainda em Miranda do Douro, por exemplo.


Côro na Catedral de Uppsala,

O beber, comer e cantar das festas pagãs foi adaptado pelo cristianismo para vinho, peru e cânticos, que substituíram cerveja (bebida por um corno), carnes dos animais sacrificados e canções do folclore

Para beber cerveja à maneira Viking.

Quanto a prendas, os nórdicos costumavam oferecer troncos de lenha. A moda dos "presentes" do Pai Natal é do sec. XX. A decoração com ramos azevinho e outros também transitou, com a adicional árvore decorada, que uma tradição tardia importada da Alemanha (ritos gemânicos) a partir dos anos 1880.



Termino com com o coro VNK de Uppsala

Jul, jul de Gustaf Nordqvist


E o Audete, Gaudete


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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Apresentação em Slideshow (e em inglês) do Museu Martins Sarmento, em Guimarães




https://www.slideshare.net/marioricca/museu-martins-sarmento-preroman-sites-in-the-north-of-portugal-84188424

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Fratres para violino e piano de Arvo Pärt, por Repin e Lugansky


Uma medida possível da grandeza de uma obra musical é a grandeza do silêncio que se faz no fim. Tenho sentido isso várias vezes, a importância do silêncio depois de música de génio - com Brahms e Bach sobretudo. Mas não só - com A Day in the Life de Lennon e McCartney, God Only Knows de Brian Wilson...

Obra prima já bem conhecida da música contemporânea, Fratres de Arvo Pärt é o que me apetece ouvir neste dia tempestuoso depois de ver as notícias de um mundo tempestuoso. Precisamos de distância. Cada vez mais. Precisamos de alternativas ao desastre.




Nunca a Humanidade se olhou como uma multidão de Irmãos. Talvez seja essa a única Utopia, afinal.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Foram gregos aos Himalaias, na Idade Média ? Parece que sim...


Tanto culto prestamos a Marco Polo e à sua viagem ao Oriente que nos custa aceitar que muito antes dele outros europeus se tenham aventurado tão longe como o Canadá, caso dos Vikings, ou os Himalaias, como estes gregos do Levante: foram descobertas nos Himalaias indianos ossadas datadas do séc. VIII-IX, cujo ADN indica origem helénica !

Ninguém escreve ou fala da Grécia medieval; pelo século VIII entrou num período de semi-barbárie, sob o terror dos invasores Eslavos e Muçulmanos. Talvez por isso os melhores herdeiros de Pytheas, o navegador do Ártico (Ultima Thule) tenham querido escapar a um destino ingrato e partiram de mala aviada. De um Império Bizantino em crise emigraram e colonizaram as terras levantinas pelo menos até à Síria, nos limites do império de Constantino o Grande. Parece que ainda hoje há milhares de gregos na zona de Aleppo, por exemplo.

O Imperio Bizantino ao tempo de Teodora englobava a Síria e o Líbano.

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O Lago Roopkund, conhecido dos locais como lago dos esqueletos, é um minúsculo e remoto lago glaciar a mais de 5000 metros de altitude nos Himalaias indianos, de demorado e difícil acesso. E um sítio dasabitado mas que contém misteriosamente centenas de  esqueletos humanos, descobertos em 1942 por um guarda florestal britânico. A explicação mais plausível para tantas vítimas é uma violenta tempestade de granizo gigante no século IX : assim indicam várias contusões violentas com objectos redondos caídos de cima na parte de trás da cabeça. E existem lendas e canções locais alusivas a essa tempestade.


Uma equipa da National Geographic analisou 30 dessas ossadas desde 2004, ainda com pedaços de carne e cabelos agarrados. Os primeiros resultados apontaram para uma maioria de origem persa/assíria, juntos com alguns locais que deviam ser carregadores e guias, e a datação apontava para cerca de 850 AD. Mas mais recentemente num dos grupos o ADN revela-se particularmente coerente com a população grega levantina que habitava a Síria ou o Líbano. Que procuravam essas gentes da Assíria grega, durante o último alento de Bizâncio sob a gloriosa imperatriz Teodora, antes da conquista árabe ? Seriam emissários bizantinos desencaminhados - e muito - da rota da seda ? Ou talvez mercadores fazendo um desvio para evitar portagens ?


É uma época fascinante. Impérios em convulsão, novos poderes nascentes, gente à descoberta do mundo.

Ler mais:
http://benedante.blogspot.pt/2017/12/the-skeletons-of-roopkund-lake-or.html


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Ano Austríaco II na Casa da Música


Já abriu a venda de bilhetes para 2018 na CdM, um ano onde Bruckner vai ser a estrela, mas também com Haydn, Mozart e Mahler bem presentes. Tanto quanto me parece, poucas opções e nenhum entusiasmo: as opções miserabilistas do costume, que em parte se devem aos escassos recursos financeiros. A pequena Áustria é gigantesca de herança musical, e apesar dos Bergs e Schoenbergs, conseguir-se-ia sempre programar boa música.

Pior ainda é o sistema de venda por assinaturas, este ano objecto de grande promoção com belo catálogo. Já nos anos 16 e 17 dei conta do descalabro de lugares vazios devido a gente que compra por atacado os melhores lugares e depois não vai. Ou dá de prenda a amigos que não estão interessados. Ou oferece como brinde por serviços prestados. Etc. É um processo assassino para quem procura seleccionar concertos por compositor ou por intérprete, e não por "ciclos" - piano, violino, barroco, sinfónica, jazz...

Sei que quase só sobravam lugares maus nos melhores (para mim) concertos, logo a meio do primeiro dia de assinaturas. É um corridinho aflito a gastar centenas de euros, pagáveis em prestações, para conseguir Mahler, Mozart, Mendelssohn ou Sibelius, além do incontornável Sokolov. Para as coisas do Remix Ensemble não faltam lugares, claro.

Bem, cá vão os meus destaques, como habitual:

- as sinfonias de Bruckner: a 7ª a 12 de Janeiro com Sanderling,  a 4ª a 2 de Fevereiro com Inbal,  a 8ª a 16 de Março, a 2ª a 12 de Outubro, a 5ª a 14 de Setembro; nada nos é dito sobre as restantes. Sendo obras massivas, extensas e de fluxo contínuo, que convidam a pairar fora deste mundo, necessitam de muito boa interpretação para evitar a maçadoria e o empastelamento em que descambam com frequência.

- Regressa Paul McCresh (que esteve à frente da Orq. Gulbenkian) em Janeiro: a 21, dirige obras para violino e orquestra de Mozart e Haydn com Huw Daniel, e ainda o Ave Verum Corpus,

- Salve Regina de Handel e cantatas de Bach (BWV 84 e 199), com a soprano Marie Lys mas... sem coro !, a 28 de Março.

- a 8 de Junho um concerto promissor: Arvo Volmer, estoniano, dirige o violinista Benjamin Schmid no 3º concerto para violino de Mozart; na segunda parte, a 5ª de Sibelius. É impressionante a quantidade de bons maestros que a Estónia vem gerando, deve ter uma escola  excelente. Com Olari Elts, Schmid volta a 20 de Outubro para o nº 4 de Mozart.

- as Estações de Haydn, por Leopold Hager - que costuma ser apenas medianamente competente - , solistas sem notoriedade e a prata da casa. Duvidoso.

- a fenomenal 6ª de Maher a 14 de Dezembro, dirige Michael Sanderling

- Sokolov vem  a 10 de Abril, mas já devem sobrar poucos lugares.

há ainda:
- uma palestra de Alfred Brendel sobre Mozart, certamente inperdível
- o jazz de John Scofield e de Joshua Redman, duas surpresas vedadeiramente luxuosas. Quem dera ter convidados desta grandeza na música clássica!



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

40 regras para bem escrever, adaptadas de Umberto Eco e William Safire


Umberto Eco, em La Bustina di Minerva, refere uma lista de 54 regras para bem escrever em inglês da autoria do jornalista americano William Safire (*); lista que Eco adapta para bem escrever italiano em 40 regras. Será presunção minha, mas atrevo-me a adaptá-las de novo à minha lusitana língua, até porque o humor paradoxal de algumas é delicioso. Note-se que as regras nº 4 e 21 são de difícill interpretação.


40 regras para bem escrever, adaptadas de Umberto Eco.

    1. Evitar as aliterações, mesmo que atraiam os trengos.

    2. O conjuntivo não tem de ser evitado, recomendo apenas que seja usado só quando necessário.

    3. Evitar as frases feitas, são caldo requentado.

    4. Exprime-te tal como te alimentas.

    5. Não usar siglas comerciais e abreviaturas, etc.

    6. Recorda (sempre) que os parêntesis (mesmo que pareçam indispensáveis) interrompem o fluir do discurso.

     7. Atenção a não causar... indigestão de reticências ...

     8. Usar o mínimo de aspas possível: não é “elegante”.

     9. Nunca generalizar.

    10. Palavras estrangeiras não fazem bon ton.

    11. Sê avaro de citações. Dizia justamente Emerson: “Odeio citações. Diz-me só o que sabes.”

    12. Comparações são como frases feitas.

    13. Não ser redundante; não repetir duas vezes a mesma coisa; repetir é supérfluo (por redundância entende-se a explicação inútil de algo que o leitor já percebeu).

    14. Só os merdosos usam palavras grosseiras.

    15. Sê sempre mais ou menos especifico.

    16. A hipérbole é a mais extraordinária das técnicas expressivas.

    17. Não fazer frases de uma só palavra. Nunca.

    18. Proteje-te das metáforas demasiado ousadas: são plumagem sobre as escamas de uma serpente.

    19. Coloca, as vírgulas, no sítio certo.

    20. Distingue a função do ponto e vírgula e dos dois pontos: embora não seja fácil.

    21. Se não encontras a expressão adequada, não recorras a expressões dialectais: aí tem bué de gato.

    22. Não usar metáforas incongruentes mesmo que te pareçam "cantar": são como um cisne a descarrilar.

    23. Há mesmo necessidade de perguntas retóricas?

    24. Sê conciso, procura condensar os teus pensamentos no menor número de palavras possível, evitando frases longas — ou interrompidas por frases intercaladas que inevitavelmente confundem o leitor menos atento — a fim de que o teu discurso não contribua para o inquinamento da informação que é certamente (especialmete quando recheado de precisões inúteis, ou pelo menos não indispensáveis) uma das tragédias deste nosso tempo dominado pelos poderes dos media.

    25. Os acêntos nâo devem ser incorréctos nem inùteis.

    26. Não se coloca apóstrofo n'os artigos nem p'r'abreviar .

    27. Não sejas enfático ! E sê parco com as exclamações !!

    28. Nem os piores fãs das barbáries pluralizam termos estrangeiros.

    29. Escreve de modo exacto os nomes estrangeiros, como Beaudelaire, Roosewelt, Niezsche, e similares.

    30. Nomeia directamente autores e personagens de quem falas, sem perífrases. Assim fazia o maior poeta sadino do século XVIII, autor de três volumes de Rimas.

     31. No início do discurso usa o captatio benevolentiae, para agradar ao leitor (mas talvez sejas tão estúpido que não entendes mesmo o que eu estou a tentar dizer). 

     32. Cuida minussiosamente da ortugrafia.

     33. Nem vou dizer-te quão irritantes são as preterições.

     34. Não mudar frequentemente de parágrafo.

           Pelo menos, quando não for preciso.

     35. Não usar nunca plurais majestáticos. Estamos convencidos de que causa péssima impressão.

     36. Não confundir a causa com o efeito: estarias enganado e portanto a cometer um erro.

     37. Não construir frases cuja conclusão não siga logicamente das premissas: se todos fizessem assim, então as premissas resultariam das conclusões

     38. Não indulgir com arcaísmos, hapax legomena ou outros lexemes inusuais, bem como deep structures rizomáticas que, enquanto te agradem como epifanias de différance gramatológica e convidem à deriva desconstrutiva – pior ainda seria se resultassem censuráveis ao escrutínio de quem leia com acribia ecdótica – excedem as competências cognitivas do destinatário.

    39. Não deves ser prolixo, mas também não deves dizer menos do que.

    40. Uma frase completa deve ter.

Algumas regras do original de Safire são demasiado úteis para ficarem esquecidas. Vale a pena ler o original, em que o humor tem um toque inglês. Exemplos:

- Reserve the apostrophe for it's proper use and omit it when its not needed.
- Don't use no double negatives.


(*)Ver aqui:
 http://www.maximumawesome.com/reference/g-safire.htm

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um pouco mais de Ana Hatherly: o sabor do saber


 

Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue.


Un poète baroque a dit:
les mots sont la langue des yeux

Mais qu'et-ce qu'un poème
si ce n'est
un télescope du désir
fixé par la langue ?

le vol sinueux des oiseaux
les hautes vagues de la mer
l'accalmie du vent
tout
tout tient a l'intérieur des mots

et le poète qui regarde
verse des larmes d'encre.



                                      sobe o sabor do saber
                                      acima da indiferença

                                      por onde passa
                                                                o saber
                                                      passa
                                                                o sabor da diferença



Tudo está aqui para alguma coisa, para desempenhar um papel, uma missão, pensamos utilitariamente. Eu, gosto das portas. A porta entreaberta, por exemplo: irá fechar-se? irá abrir-se? dar passagem? Oh subtil porta que tão indiferentemente abres-fechas: nem sei se olho para dentro ou de dentro.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

As Faias da Pedra Bela e outras maravilhas


A floresta mista de faia, bétula, carvalho, freixo, castanheiro e azevinho do Parque do Gerês é um tesouro. Eu estava com receio de que houvesse alguma área ardida, mas não, pelo menos as zonas que agora visitei - Pedra Bela, Ermida e Albergaria - não podiam estar mais esplendorosas.

O contraste das faias com folhagem horizontal amarela ou vermelha com os carvalhos e as bétulas ainda verdes oferece quadros de bosque encantado. Ainda corre água pelas fontes naturais à beira da estrada, a Caniçada está a cerca de 70%, e à volta dos cursos de água o terreno ainda está bem húmido. Deve ser um caso raro, que mais ainda torna precioso o território do Gerês.


Mas neste Outono, quem reina são as fabulosas Faias.



As faias gostam de encostas e vales frios e húmidos. Mas é com sol que exibem o seu melhor.









De súbito, numa curva da estrada, a variedade de cores pode ser gloriosa:





Obras primas.



    Et je m'en vais
    Au vent mauvais
    Qui m'emporte
    Deçà, delà,
    Pareil à la
    Feuille morte.

                           
                            Paul Verlaine